A ÁGUA E A SUBSISTÊNCIA NA COLÔNIA HOLANDESA

            É desde a antiguidade que as sociedades humanas sabem que a ampla oferta de água não necessariamente significa o fácil acesso e manejo desse recurso. As experiências, por vezes catastróficas, pelas quais passaram as populações que viviam em torno dos rios Tigre, Eufrates, Nilo, Indo e Amarelo, na Mesopotâmia, Egito, Índia e China, respectivamente, tornam isso bastante evidente.

Milênios depois, na metade do século XX, os imigrantes holandeses da colônia de Arapoti-PR enfrentaram uma situação semelhante, ainda que em menor dimensão. A localidade que escolheram para assentar suas propriedades era repleta de rios e com dezenas  de córregos, fator percebido pelas pesquisas feitas durante a construção do projeto. Destacando-se o Rio das Cinzas, Rio das Perdizes, Rio do Chico, Rio Laranjinha, como são denominados na atualidade e pode ser observado na imagem abaixo.

Figura 1: hidrografia da Microrregião de Jaguariaíva

            Apesar dessa abundância hídrica, as terras compradas pela Cooperativa de Imigração não estavam preparadas para receber um projeto agrícola daquela dimensão. Era necessário abrir estradas, arar campos nativos, preparar um solo tão irregular e, sobretudo, canalizar a água para torná-la útil para as atividades agropecuárias. Vale lembrar que a dificuldade de acesso impactava também nas atividades domésticas, o que tornava a administração do lar uma tarefa árdua para as mulheres. 

            Para isso seria usado uma parte do dinheiro recebido do projeto de financiamento, principalmente aquela que viria do governo brasileiro. No entanto, foi justamente essa parte da verba que não chegou aos cofres da Cooperativa de Imigração, comprometendo o andamento do projeto e a construção da infraestrutura da colônia. E apesar de algumas benfeitorias terem sido feitas nas propriedades, como a construção de casas e a melhoria de estradas, ainda existiam necessidades básicas a serem sanadas. A principal delas era o acesso à água. 

            Alguns córregos passavam em meio às lombas e sua água podia ser usada para as atividades agropecuárias, sendo para esse fim transportada muitas vezes em latões, através de tratores e carroças. No entanto, a água para consumo dos moradores da colônia era de mais difícil acesso e precisava ser extraída de poços ou bombeada dos rios até a parte mais alta, onde ficavam as caixas d’água. Para isso, já no ano de 1960 alguns poços de aproximadamente 35 metros passaram a ser perfurados. A partir de 1962 se têm registros do uso de “carneiros” e de rodas d’água, equipamentos usados para bombear a água e que eram movidos a geradores de energia ou pela força do próprio rio.

Construções como essas podem ser observadas nas imagens abaixo:

Figura 2: Casal de imigrantes posando junto ao poço de água em sua propriedade

Figura 3: Poço manual na propriedade da família Verburg

            Figura 4: Roda d’água em uma represa particular da Segunda Lomba

                 Segundo relatos, em decorrência da instalação precária e à irregularidade da vazão do rio, as bombas d’água apresentavam problemas constantemente, prejudicando o abastecimento das famílias. Além disso, fortes chuvas provocaram grandes enchentes, até mesmo em anos mais recentes. Isso levou os imigrantes a intervirem na paisagem natural para reconstruir pontes e estradas, bem como para colocar em pé novas edificações que ajudassem a conter a força das águas e preservar suas lavouras.

                 Dessa forma, surgiram barragens para o aproveitamento energético da força das águas, pontes e encanamentos, como podem ser vistos adiante:      

Figura 5: estragos causados pela enxurrada entre a Terceira e a Quarta lomba

Figura 6: Transbordamento de um córrego, com a água atingindo a lavoura

Figura 7: Construção de barragem para o aproveitamento energético da água

A ÁGUA, O DESENVOLVIMENTO E O LAZER

                   Acima observamos o quanto foi desafiador lidar com a água nos primeiros anos da colonização, tanto nas atividades domésticas, quanto na agropecuária. Mas, isso não quer dizer que o acesso à ela não tenha sido essencial para que a colônia de Arapoti prosperasse. Não é à toa que as construções acima mencionadas, juntamente com a chegada da energia elétrica em 1968, contribuíram decisivamente para o desenvolvimento social e para o aumento da produtividade. Adiante trazemos algumas fotografias da instalação dos primeiros poços artesianos, possibilitada pelo início das atividades da CERAL (Cooperativa de Eletrificação Rural de Arapoti Ltda).         

Figura 8: Registro da perfuração dos primeiros poços artesianos da colônia

Figura 9: Registro da perfuração dos primeiros poços artesianos da colônia

                    Outra parte essencial da vida comunitária e cultural da colônia holandesa de Arapoti se dava através de momentos de confraternização e lazer, muitas vezes realizados nas margens dos córregos, rios e represas, que sempre foram de fácil acesso para os moradores. Gincanas, piqueniques e acampamentos traziam diversão para todas as idades, como pode ser observado nas imagens a seguir:

Figura 10: Famílias imigrantes em um momento de lazer no rio

Figura 11: Famílias imigrantes em uma gincana no rio

Figura 12: Imigrantes em um momento de lazer no rio

Nesse texto, vimos que a humanidade segue se surpreendendo através das suas relações com a natureza. Mesmo que o tempo tenha passado e que centenas de anos nos distanciem das primeiras sociedades que foram desafiadas pela força das águas, ainda temos muito a aprender. Se hoje a colônia holandesa de Arapoti bate recordes de produtividade na agricultura e na pecuária, é porque encontrou as melhores formas de lidar com as riquezas disponíveis. Entre elas, uma das mais importantes: a água. Sendo assim, nesse DIA DA ÁGUA, recordemos que a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade são sempre o melhor caminho para garantir o nosso presente e o futuro das próximas gerações.

 

 

 

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Osvaldo Matos

Historiador do MIH